quarta-feira, 28 de abril de 2010

Confiança



A vida encarrega-se de nos tornar desconfiados. Mesmo os que não têm propensão para tal estado de espírito (como era o meu caso), com o passar dos anos e com as vicissitudes a que ficam sujeitos (as pequenas ou grandes facadas, os pequenos ou grandes golpes desferidos pelas costas, etc.) acabam por soçobrar àquilo que se torna uma simples evidência: confiar nos outros pode ser perigoso.

Bem sei que não é possível viver sem um mínimo de confiança nas pessoas. Até quando vamos a um café e tomamos uma bebida temos de acreditar que o empregado não nos serve veneno. Mas essa é outra questão. Trata-se daquilo que poderíamos chamar o nível I da confiança; sem este nível, a vida tornar-se-ia insuportável. Vislumbraríamos perigo em tudo e em todos, motivo pelo qual não seríamos capazes de agir. Reduzidos a observadores perigosos (sim, nós seríamos perigosos) do desenrolar da vida, ninguém teria a paciência necessária para nos suportar. Nesta falta de confiança básica se baseia a chamada teoria da conspiração que consiste em acreditar que uma desgraça se vai abater sobre nós, apesar de não haver qualquer indício sério de que tal possa vir a suceder.

Mas a confiança a que me referia é a que corresponde ao nível II. Trata-se de acreditar que as pessoas são justas e honestas, que nada fazem para nos prejudicar, que podemos ser francos e abertos com elas, mesmo que as não conheçamos bem, que não devemos negar-lhes ajuda quando para tal nos solicitam, etc. É certo que ainda penso ser possível actuar com base neste nível de confiança. Mas já não creio que o universo de pessoas em quem podemos confiar seja tão alargado como acreditava há poucos anos atrás. A vida encarregou-se de me roubar aquela candura que vê luz mesmo no meio da escuridão. E quando não aprendemos através de coisa miúda, acabamos por aprender à custa de uma carga bem pesada!

Apesar de tudo isto, vale a pena abandonar-nos aos outros de forma confiada; a questão está em saber escolhê-los. Antes, bastava que fossem pessoas ― isso para mim era já o bastante ―, hoje é preciso que me provem que o são inteiramente.


(Layse Maria)


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sobre o amor segundo Ferreira Gullar

"....Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical — falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.

O amor é uma doença como outra qualquer.

E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém meta na cabeça que só existe fulano ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas... Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!...

Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou não.
"

Do branco


"É de repente meu coração embraqueceu,
como os cabelos embranquecem,

como a alma se solta no branco da paz...

e assim a vida vai para além,
para o infinito do que é
para além daquilo que se vê,
se vemos e imaginamos no branco da cor do é...."


(Layse Maria)

sábado, 17 de abril de 2010

Cego a multidão




Via-me diante de tamanha imensindão,no entanto tu que tanto cogitei ver-me,tu que mesmo ocupado com os quatro sentidos restantes,fechava os olhos,cego a multidão;tu,tão somente tu,não me vias.Espremia-me entre tantos,entre poucos que talvez te admirem,mas não como eu.....
Buscava sempre sua visão,e tu sempre fechava os olhos....Mas eu permanecia até o fim,como sempre cogitando que apenas me notasse em meio aquela multidão,mas tu simplesmente e puramente fechava os olhos.....E se já me viu antes,que por bobeira apenas,se eu soubesse,já seria válido,mas tu te tornas cego a multidão que nos distancia a cada encontro,tu que és estrela da noite,tu que arrazas com um belo soar de voz macia e branda,mas que fecha os olhos,talvez para sentir a emoção daquele profundo momento,mas eu que sempre estou lá em meio a multidão.
Recordo cada gesto teu,e se fico só em meio a multidão,sem perceber me vejo a luz dos teus olhos que mesmo fechados já me dá beleza em cortesia...tu que percegue meus sonhos mais loucos e inatingíveis,tu que és cego a multidão....

Layse Maria

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ao recípro ato de amar




São formas de abraçar uma mesma essência
Artifício humano para expressar o mesmo substrato intangível e sublime.
Ele mesmo contitua lá; Intocável, inatingível em sua plenitude a não ser por aquele que o sente com o outro.
A não ser quando se encontra, no universo de possibilidades infinitas,
proclamar o encontro sincero e etéreo do ser amado.

domingo, 11 de abril de 2010


Minha alma,minha vida

Tenho que arrumar minha casa,
tenho que arrumar minha alma
minha casa, meu corpo.
minha alma, minha vida.
Tenho que arrumar rápido
muito rápido
pois o tempo não espera
e não posso deixar nada
desarrumado.

(Layse Maria)